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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Capítulo 1: Silêncio




          O som dos gritos vindos da cozinha de minha casa ecoava por toda a rua. Metade dos vizinhos já havia ligado para o nosso telefone e deixavam reclamações inúmeras e às vezes ofensivas. Eu não esperava menos, já eram quase onze horas da noite de uma terça-feira. Eu já me acostumara com aquela situação, a vivia, no mínimo, umas três vezes por dia. Meus pais já não se davam bem há anos e esses gritos já se tornaram até repetitivos, geralmente eram usadas as mesmas palavras e xingamentos, de certa forma ficava até entediante. Mesmo assim é uma situação perturbadora para um adolescente de 15 anos presenciar, por mais que eu esteja acostumado a essa situação, ainda assim doía. Eu nunca soube o real motivo dessas brigas, por um bom tempo eu achei que fosse minha culpa, mas nunca foi citado meu nome no meio dessas brigas, pensei que poderia ser a falta de emprego que já afetava o Sr. Morrison, meu pai, de época em época, ou o fato dos rumores de traição da minha mãe... O tom dos gritos subiu e eu ouvi vidro, provavelmente o Sr. Morrison tentou acertar a Sra. Morrison com um prato, se quebrando. As palavras começaram a pesar o ambiente interno de toda a casa, o ar ficou denso e irrespirável. Peguei meu casaco preto e calcei meu Tênis e fui ao banheiro. Abri a porta do armário que ficava atrás do espelho, peguei minha escova e o creme dental, fechei a porta e por um segundo me encarei no espelho. Um garoto de média altura e corpo magro que estava com um olhar vazio. Cabelo castanho com uma franja que lhe descia até os olhos, a pele num tom quase pálido, com aquele rosto magro fazendo jus ao seu pescoço.  Olhei para baixo e dei um sorriso achando graça daquela situação. Escovei os dentes. Saí do banheiro e fui ao meu quarto, guardei o que tinha que guardar e saí. Desci as escadas e fui em direção à porta da frente, fiz o máximo pra não ser notado enquanto passava pela única área da sala que era visível da cozinha.  Saí e fechei a porta sem ao menos olhar para trás.
         Dei alguns passos em direção à calçada, olhei em volta, não havia ninguém. Caminhei em direção ao fim da rua. A Lua estava em formato de sorriso e jazia amarelada em cima da Velha Casa, onde eu me encontrava com meus amigos, a última casa da rua. Ela havia sido abandonada, a quase quatro anos, e desde então nunca se teve notícia dos donos ou quem quer que seja sobre alguém que deveria morar naquele lugar. A casa, que parecia ser do século passado, ainda estava em bom estado, a varanda que servia como entrada da casa estava quase me perfeito estado exceto pela sujeira que se acumulara ao longo do tempo, as janelas ainda tinham todos os vidros, também sujos, intactos e o jardim embora mal cuidado ainda estava, de uma certa forma, bonito, como a arvore mais próxima da casa estava do outro lado da rua, não havia muitas folhas secas pelo amarelado gramado que já alcançava uma parte da minha perna, o telhado estava completo, mas sofrera com a chuva, neve e o Sol durante esse tempo. Pelo menos a parte exterior da casa estava em boas condições, a parte interna nem tanto. A parte de dentro da casa estava vandalizada, o assoalho estava com alguns buracos a escada parecia que ia desmoronar a qualquer segundo, as paredes estavam pinchadas, a não ser pela lateral esquerda da lareira que ficava na sala, tenho quase certeza que aquela mancha não era tinta. O segundo andar não estava tão danificado como a parte inferior da casa, tinha sinais de vandalismo, porém, não tão devastadores. Ainda havia alguns móveis pela casa. Na sala, perto da lareira, tinha um sofá quase destruído pelos “moradores” anteriores., na sala de jantar havia uma mesa com duas cadeiras ainda em bom estado, no canto da sala estavam as outras quatro cadeiras totalmente destruídas. Na cozinha ainda residia um velho fogão e uma geladeira sem porta. No segundo andar, todos os três quartos estavam mobiliados, com cama, guarda roupa e criados-mudo. O único banheiro da casa, que ficava entre o primeiro e o segundo quarto no segundo andar, estava bem conservado, era a única parte da casa onde não havia sinal de baderna.
          Os gritos ainda estavam audíveis, mesmo a uma distância de duas quadras do lugar de onde eles vinham. Continuei meu caminho até a casa. Notei que havia uma movimentação no interior do segundo andar, um pequeno fecho de luz dançava dentro de um dos quartos, uma vela. Era o sinal que eles já estavam por lá. Atravessei o médio e amarelado gramado da casa, abri a porta. Por algum motivo eu parei e olhei a casa antes de entrar, como se fosse encontrar algo de diferente.
          - Então... Acho que você deveria entrar e fechara a porta, os gritos dos seus pais ficam mais fracos quando ela está fechada. – Olhei diretamente para o vulto que estava sentado no meio da escada. Abaixei a cabeça e dei um meio sorriso, fechei a porta, lentamente, atas de mim. Caminhei em direção a pessoa na escada para tentar reconhecer. Quando notei, inevitavelmente, o sorriso se abriu mais do que eu queria no meu rosto. Era Daniel, um garoto revoltado que eu conheci no quinto ano que na época era um garoto normal. Um garoto alto de pele amarela, com um cabelo negro que lhe descia até os ombros, olhos castanhos muito escuros, um corpo magro e no peito uma tatuagem de coruja com asas abertas. Daniel mudou muito desde a época que eu o conheci, ela não era mais um garotinho tímido que vivia se escondendo de tudo e de todos, hoje ele, pelo menos quando ele está dentro da casa, consegue se sentir seguro, conseguia ser ele mesmo.
          - Hey, Daniel! Estão todos lá em cima? – Perguntei.
          - Menos nós dois! – Ele falou sem tirar os olhos do degrau onde seus pés estavam. Com certeza alguma coisa aconteceu, mas, conhecendo como eu o conheço, ele vai responder que nada estava errado.
          - Danny, tem alguma coisa errada? Quer me falar alguma coisa? – Eu perguntei esperando a costumeira resposta. Ele ficou em silêncio e uma gota de lágrima pousou no degrau, com um baque surdo, espalhando a poeira acumulada ali. – Daniel, fala comigo... O que houve?
          - Nada... Nada, estou bem. – Disse ele, passando a manga da blusa de manga comprida nos olhos, como se estivesse enxugando as lágrimas que saltaram dos olhos ou pra evitar que mais alguma descesse pelo rosto.
          - Ah! Qual é Danny, tem alguma coisa errada. - Insisti – Eu posso te ajudar se quiser passar um tempo lá em casa, ou sair um pouco, viajar, acam...
          - EU JÁ DISSE QUE TÔ BEM... – Fui interrompido pelos gritos que calaram até a conversa dos outros que estavam no quarto de cima. Ele se levantara e ficou a um degrau de distância de mim – EU SÓ... só... -  O choro o fez perder as palavras e num súbito ataque ele veio na minha direção e de repende ele estava se segurando em mim. Eu senti suas lágrimas em meus ombros e por instinto eu retribuí o abraço. Seus dedos se apertaram na minha jaqueta e senti a força deles nas minhas costas, então, eu, o apertei contra mim com um pouco mais de força. Ele me soltou e com os olhos vermelhos e aparentemente inchados, ele me olhou, um olhar de agradecimento, eu não sabia porque, mas sorri em tom de compaixão. Ele voltou a se sentar na escada. – Desculpa Samuel. – Ele me olhou, sorriu forçadamente e voltou a encarar o chão. – Os outros estão te esperando lá em cima, sobe.
          - Não, Danny. Vou ficar aqui com você. Você sozinho nesse estado não é uma coisa boa de se deixar acontecer. – Eu disse em tom de brincadeira, mas deixando claro meu medo do que poderia vir a acontecer depois.
          - O que você acha que eu vou fazer? – Ele me perguntou, no mesmo tom que o meu.
          - Não sei. Talvez atacar o cara fantasiado de Torrada em frente a cafeteria.
          - Verdade, isso iria me ajudar muito. – Um sorriso se abriu no rosto dele e, não sei por que, senti meu dia completo. Inevitavelmente eu também abri um sorriso e fiquei encarando-o por alguns instantes. Alguma coisa deveria ter saído da minha boca quando ele encontrou meu olho e fixamos os olhares, mas nada saí, mesmo porque eu não sabia o que deveria falar.
          Levantei e estendi minha mão, ele a olhou sorriu e se levantou sozinho dizendo: “Eu ainda consigo me levantar sozinho”, senti um tom hostil na frase mesmo com aquele sorriso ainda no rosto dele.
          - Vamos subir! O babaca do Mark já deve ter inventado alguma historinha ridícula sobre nossa demora. - Mark era o palhaço da turma. Um garoto e dezesseis anos de idade, físico de dezenove anos e mentalidade de uma criancinha de seis anos. Alto, forte, loiro com olhos verdes, um corpo relativamente definido que ele gostava de mostrar durante as aulas de Ed. Física e o treino de futebol, mesmo quando estava frio. Era geralmente o centro das atenções na escola, super popular desde sempre, não era o exemplo de aluno, mas era o exemplo do sonho americano do ensino médio.
          Quando Daniel abriu a porta, os olhares se voltaram para nós. Danny ainda estava com os olhos vermelhos e minha jaqueta tinha uma mancha escura no meu obro direito que mesmo com a pouca luz produzida pelo velho lampião, que eu achei dentro de um dos criados mudos, era visível. E lá estava Mark, olhando pra mim, provavelmente, mentalizando uma das suas péssimas piadinhas. Ele simplesmente balançou a cabeça e aquele gesto foi o suficiente pra me deixar sem reação.
          Danny entrou no quarto e se sentou na cama ao lado da Tifanny. A garotinha prodígio da cidade. Filha dos médicos mais bem sucedidos do hospital, era considerada por muitos, quase todos os moradores de Eastwood, como a chefe da próxima geração de médicos. Seus cabelos ruivos que desciam até sua cintura e com uma franja virada para o lado direto do rosto, eram seu principal atrativo, sem conta suas sardas e seu jeitinho menininha de ser. Pra uma garota de quinze anos de idade, ela tinha um corpo muito esbelto. Seios avantajados e um quadril que fazia muitas meninas terem inveja. Suas pernas longas e definidas completavam um conjunto de beleza natural encontrada em poucas pessoas. Tiffany me olhou e me deu aquele sorrisinho meigo e inocente que enganara toda a cidade por todo o tempo.
          - Para, você não tem que mentir pra ninguém aqui dentro. E não precisa esconder o seu cigarro, to sentindo o cheiro da nicotina daqui. E só de te olhar da pra ver que você bebeu um ou seis copos do Whisky que eu trouxe na semana passada. – Eu disse. Ela pegou o copo que estava apoiado em cima de um livro que estava no criado mudo, e meio cigarro que ela escondia na mão atrás das costas. – Acho melhor você dormir na casa da Alice.
          Alice era a melhor amiga de Tiffany, uma garotinha baixinha e gordinha, de cabelos loiros e uma mecha preta, ainda não entendi o porquê de ela fazer isso. Seus olhos eram pequenos e quase fechados, sua boca rosada dava um tom de cor naquela pele branca. Era geralmente calada e tímida, era uma presença quase despercebida. Ingênua, porém racional. Dentre todos nós ela era a mais inteligente de todas. Sempre com ótimas notas e elogiada pelos professores da escola, ela já recebeu destaque em mídia estadual, mas esse era um status que ela parecia não gostar muito, acho que só o fato de as pessoas a conhecerem ou de ter seus rosto estampado no jornal da escola com a manchete; “Estudante da Estwood High School Recebe Premio Estadual de Matemática”, a deixava em pânico por dias.
          - Eu falei para ele diminuir no cigarro, Nathan, mas ela não me esculta. – Disse Alice, baixinho como sempre, olhando para todos os lados menos para mim.
         - Eu falei para ela blábláblá. – Tiffany tentou imitar o som da voz da Alice, mas o álcool a fez imitar, quase com perfeição, uma garota protagonista de um vídeo viral da internet que foi presa por dirigir bêbada. - Fiquem quietos vocês dois, e vão cuidar das suas vidas. – As palavras, num óbvio tom de raiva, calaram todos dentro do quarto.
          - Calma Tiffany. O Nathan não tem culpa de nada. – Daniel falou de uma forma tranquilamente apreensiva, como se esperasse um soco ou algo do tipo como resposta da garota.
          Ela respirou fundo, olhou para seu copo quase vazio de whisky e depois para mim.
          - Foi mal, Nathan. – Ela começo tranquila. - Mas a porra da minha vida tá indo  mal, você não tem culpa de nada, mas acho melhor não vir com brincadeirinhas comigo porque não to pra isso hoje. – Considerei isso como um pedido de desculpas.
          - Ok! – Desviei meu olhar dos olhos da Tiffany que, mesmo alguns segundos depois daquele sermão, ainda me fuzilavam. –
          Encaminhei-me em direção ao guarda roupa para me sentar ao lado do garoto de cabelos ruivos e olhos verdes, seu sorriso quase cobria o rosto fino que ele tinha. Não era nem gordo e nem magro, era mais ou menos da minha altura. Era, geralmente, quieto só falava o necessário. Na maioria das vezes ele estava com o seu caderno na mão. Ele escrevia muito, mas ninguém sabia sobre o que.
          - Collin. – Cumprimentei e ele respondeu com um aceno de cabeça e um meio sorriso. – Ok...
          Não era costumeiro, mas todos pareciam estranhos naquele dia, mas que o normal. Estavam pensativos. Pensei em perguntar, mas não sabia se era o melhor a fazer. Me juntei ao silêncio comunitário, olhando um a um, procurando alguma resposta ou até mesmo perguntas que eu pudesse fazer, mas não achei nada.
         O tempo foi passando e poucas palavras foram ditas e a maioria foi minha. Senti que eu deveria ter feito algo ou eles estariam escondendo alguma coisa de mim e eu só tinha que saber o que era.
         - Não, Nathan, a culpa não é sua. – Disse Daniel do outro lado do quarto enquanto acendia um cigarro. Ele me olhou com um sorriso, depois de um trago, e continuou.  – Só não estamos num dia bom. Fica tranquilo. – Eu olhei nos olhos dele e tive um súbito calafrio que encheu meus olhos e tentou abrir um sorriso em mim. Danny, meu melhor amigo me conhecia e sabia, até pelo meu olhar, o que se passava pela minha cabeça, o que me fazia feliz..

          Aquele sorriso que o Dany me laçou, fez meu rosto esquentar, não sei se ele notou, mas Alice sim. Ele me lançou um olhar tranquilizador e sereno que me fez sentir menos envergonhado, ela sorriu. Voltei a olhá-lo, ele estava fixando a janela. Eu ainda não entendia bem o que estava acontecendo ali, mas pelo que conheço deles, as coisas iam piorar muito antes de melhorar. 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

/Beginning  

      As coisas iam bem, era só mais um dia chuvoso na minha cidade e eu estava sentado e encostado numa árvore, enquanto ouvia o som das gotas cair nas folhas e no gramado. As nuvens estavam se movimentado rápido e  grossas e tão cinzas que praticamente bloqueavam a claridade do sol e era que, na minha opinião, fez aquele dia ficar perfeito. O som do vento chacoalhando os galhos que batiam entre si acalmava minha cabeça e alma de uma forma quase inexplicável. Poucos era os carros que passavam pela rua ou pessoas nas calçadas, basicamente eu era a única pessoa ali, o que me deixava mais feliz. Mas eu ainda tinha um acompanhante, meu notebook, quase um diário, um amigo ou confidente. Ele era o único que sabia o que se passava em minha cabeça ou no meu coração até. Era o meu melhor ouvinte/leitor. Eu deixava tudo nele, confiava tudo a ele. Ele, obviamente, sabia minhas senhas, meus trabalhos, minhas dúvidas, meu gosto musical e meus sentimento.
     Naquele dia eu pensei comigo mesmo que meu pobre amigo já havia cansando de ler minhas histórias e guardar tanas coisas em sua memória. O pobre já estava velho e eu sentia seu cansaço. Queria dar-lhe um descanso, não definitivo, pois ainda eramos um só e ele ainda era em quem eu  mais confiava. Mas ele precisava de seu tempo de sossego. Então pensei em compartilhar os meu pensamentos com pessoas, usando o velho e amigável notebook, mas liberando-o de guardar tanta coisa pra si próprio. Decidi publicar minha idéias e meus sentimentos, quem sabe assim eu aproveite minhas loucuras de uma forma criativa. Quem sabe assim eu consiga me entender ou mesmo entender muita coisa que se passa em/por mim. Consiga desvendar sentimentos, criar mistérios, prender pessoas a ler e esperar algo bom que venham de uma pessoa que se escondeu uma vida inteira atrás de um teclado de notebook, sentado no gramado encostado numa árvore ni jardim de casa, que ele costumava chamar de "Jardim Das Boas Intenções".